Há um tempo publiquei uma análise comparando o Brasil com os países da OCDE: quantas horas o trabalhador brasileiro precisa trabalhar para pagar impostos. Para chegar a esse resultado, tive que olhar para a produtividade. Os comentários e as discussões que surgiram me mostraram uma coisa: muita gente tem dificuldade de entender o que é produtividade.
Por isso quero voltar ao tema, desta vez sem o rigor do método. Vou usar minhas próprias percepções, e alguns preconceitos também, para tornar o conceito mais palpável. A discussão mais técnica pode ficar para depois.
Quando se diz que o trabalhador brasileiro é pouco produtivo, ninguém está dizendo que ele é preguiçoso. O brasileiro trabalha muito, e todos sabemos disso. É por isso que a afirmação incomoda tanto: “Eu acordo às cinco da manhã e trabalho até as seis da tarde todos os dias. Como não sou produtivo?”
A resposta é que a produtividade não depende apenas do esforço individual. Ela resulta de um conjunto de comportamentos e de condições que afetam quanto se consegue produzir em uma hora de trabalho.
Uma anedota: a carteira perdida
Cresci no interior da Bahia, um estado populoso e com carências profundas, e lá ouvi com frequência histórias como a que vou contar. Talvez você também tenha vivido, presenciado ou ouvido alguém contar algo parecido.
Imagine que você perdeu a carteira com uma quantia significativa de dinheiro em um lugar que não costuma frequentar de maneira recorrente: um supermercado, uma rodoviária, um aeroporto. A chance de reaver a carteira com os documentos no setor de achados e perdidos é razoável. A chance de reavê-la com o dinheiro dentro é muito baixa.
Agora suponha que alguém encontrou a carteira e a devolveu com os mil reais intactos. Muito provavelmente essa pessoa vai esperar alguma recompensa: “fui honesto, devolvi tudo, ele vai me dar alguma coisa”. Se nada vier, nem 50 ou 100 reais, ela vai se sentir injustiçada. Ou seja, ela espera ser recompensada por fazer o mínimo necessário para a convivência em sociedade.
Essa cena mostra dois comportamentos comuns no Brasil que geram ineficiência. Um aparece do lado do empregador, o outro do lado do trabalhador.
Do lado do empregador: a falta de confiança vira burocracia
Se a chance de recuperar o dinheiro é baixa, o empregador conclui que não pode confiar seus recursos aos funcionários. Para se proteger desse risco, ele cria mecanismos de controle que tornam a produção mais lenta.
Pense no operador de caixa. No Brasil, quando o cliente quer cancelar um item já registrado, é comum que o operador não tenha autorização para isso. Ele precisa chamar um gerente, a pessoa de confiança da empresa. Um atendimento que levaria 8 minutos passa a levar 20. Isso não acontece porque aquele funcionário específico é desonesto. Acontece porque, na média, o empregador espera esse tipo de comportamento e se protege.
Em outros países, o próprio atendente faz o cancelamento ou a devolução sem pedir autorização a ninguém.
Vi isso de perto quando trabalhei na área comercial de uma empresa que desenvolvia software para lojas de material de construção. Em um desses sistemas foi preciso dificultar o cancelamento de itens. Em algumas lojas, o cliente pagava por quatro sacos de cimento e levava os quatro, mas o funcionário do caixa cancelava um no sistema e embolsava o dinheiro. O dono só percebia ao conferir a diferença no estoque. A saída foi acrescentar burocracia, e o custo dela recai sobre todos os funcionários e clientes.
Repare que o problema não está na capacidade do trabalhador. Ele não é incompetente. São os vieses de comportamento que exigem etapas adicionais no processo produtivo, e o resultado é que se produz menos em cada hora trabalhada.
Do lado do trabalhador: quando o mínimo vira favor
O segundo comportamento aparece na própria história da carteira. Quem devolveu o dinheiro fez o que se espera de qualquer pessoa, mas sentiu que tinha feito um favor. Quando o mínimo passa a ser visto como algo que merece recompensa, isso também chega ao ambiente de trabalho.
Não se trata de dizer que o trabalhador é aproveitador. Em um ambiente onde a honestidade e o cumprimento das obrigações não são o padrão esperado, quem cumpre se sente acima da média e acha que merece algo a mais. O problema é o que isso custa para o processo produtivo. Se fazer o básico depende de um incentivo extra, a empresa precisa criar esse incentivo ou fiscalizar. Ela paga prêmio por chegar no horário, cria metas para tarefas que já fazem parte da função e põe alguém para supervisionar o que deveria ser feito de qualquer jeito. Tudo isso consome tempo e recursos sem aumentar a produção.
Não são todos os trabalhadores, mas basta que o comportamento seja comum para que a empresa se organize em torno dele, como no caso do caixa.
Do lado do Estado: regulação que transfere custos
Há ainda o excesso de proteção por parte do poder público, que acaba regulando mal o ambiente de negócios. A mineração é um exemplo. Pela preocupação com impactos sociais, alguns estados obrigam as mineradoras a elaborar diagnósticos do ambiente socioeconômico da região e, além disso, a construir escolas, creches, hospitais e moradias para a localidade.
Na prática, o Estado transfere para a empresa custos que são obrigação dele. A empresa aumenta a folha de pagamento e o quadro de pessoal sem aumentar a produção da atividade extrativa. Mais horas de trabalho e o mesmo volume produzido significam menor produtividade.
Então, o que significa “pouco produtivo”?
Quando dizemos que o brasileiro é pouco produtivo, não estamos dizendo que ele não quer ou não consegue trabalhar. Ele tem capacidade e tem vontade: levanta às cinco da manhã e sai do trabalho às seis da tarde. O que existe é um sistema de vieses de comportamento, regulação ineficiente, carências multidimensionais que impede uma produção maior por hora trabalhada.
No exemplo do supermercado, se o próprio operador pudesse cancelar o item, o ganho seria enorme. Multiplique os 12 minutos perdidos em um atendimento por todos os clientes que ele atende e por todos os funcionários da loja.
O problema não é o trabalhador. É o sistema: a regulação, a educação e as carências que alimentam esses desvios. E isso precisa ser enfrentado com políticas públicas efetivas.