O planejamento é fundamental para cuidar da saúde financeira. Conhecer o comportamento dos preços ao longo do ano pode ajudar a escolher momentos mais favoráveis para consumir e a aproveitar melhor o orçamento. Alguns bens e serviços apresentam oscilações que se repetem em determinados meses, um padrão conhecido como sazonalidade. Em uma análise anterior, mostrei como esse padrão pode orientar a escolha da época das férias. Essa análise, por sua vez, busca identificar padrões na movimentação dos preços do automóveis.

No caso dos carros, o tema ganha peso porque a compra de um veículo é, para muitas famílias, uma despesa significativa. Para quem tem flexibilidade para escolher quando comprar, vale saber se existe uma época do ano em que os preços costumam ser mais baixos. Com esse objetivo, analiso a sazonalidade dos preços de automóveis novos e usados. Os resultados apontam o segundo semestre como período mais favorável, enquanto fevereiro e março tendem a apresentar os preços mais elevados.

Nesta análise, o melhor mês é aquele em que os preços costumam ficar relativamente mais acessíveis, descontada sua tendência de longo prazo. Para identificar esse padrão, utilizo os subitens pesquisados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A comparação considera tanto o comportamento de carros novos e usados separadamente quanto o resultado da cesta completa.

Os preços considerados na análise

A cesta reúne os dois subitens do IPCA ligados à compra de veículos: automóvel novo e automóvel usado. A série vai de janeiro de 2012 a setembro de 2026, com 177 meses de observação.

Para calcular a variação mensal da cesta, os pesos dos subitens no IPCA são ajustados para somar 100%, preservando sua importância relativa. O resultado é a média ponderada das variações mensais desses preços. A partir dela, é construído um índice que permite acompanhar sua evolução ao longo do tempo. Os índices são nominais, ou seja, não descontam a inflação geral do período. Como os dois mercados se comportaram de forma muito diferente ao longo da série, também analiso cada subitem separadamente.

Como identificar os efeitos do calendário

Os preços podem subir ao longo dos anos e, ao mesmo tempo, apresentar oscilações que se repetem em determinados meses. Esse segundo movimento é a sazonalidade. Para identificá-la, separo a tendência dos efeitos mensais e das oscilações restantes. A tendência é estimada por uma curva suave, com cerca de um grau de liberdade a cada dois anos de dados, e os efeitos mensais são medidos em relação a ela. Os efeitos dos doze meses somam zero, de modo que cada valor indica quanto aquele mês fica acima ou abaixo da referência sazonal.

Figura 1 – Decomposição do índice de preços de automóveis
Figura 1 – Decomposição do índice de preços de automóveis. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Apresento os resultados de duas formas. A primeira é o desvio médio de cada mês em relação à tendência, que mostra o que aconteceu, em média, nos dados. A segunda é o efeito sazonal estimado pelo modelo, acompanhado de seu intervalo de confiança de 99%. Os intervalos foram calculados com ajuste Newey–West de 12 defasagens, que leva em conta a correlação dos erros ao longo do tempo. Quando o intervalo inclui zero, o resultado não permite distinguir o efeito de zero no nível de confiança indicado. Um efeito negativo indica preços relativamente mais baixos naquele mês, descontada a tendência de longo prazo.

Como os preços dos carros evoluíram

Antes de procurar a sazonalidade, é preciso olhar a trajetória. O índice da cesta começa em 100 e passa por três fases bem distintas.

Na primeira, logo no início da série, há uma queda de 5,1% em junho de 2012, a maior variação mensal do período. A queda coincide com a redução do IPI sobre automóveis anunciada no fim de maio daquele ano. Os preços se recuperam até 2015 e ficam praticamente estáveis, em torno de 99 a 100 pontos, até meados de 2020.

Na segunda fase, entre junho de 2020 e junho de 2022, o índice da cesta sobe 25,7%, de 99,6 para 125,2 pontos. É o período da pandemia, em que a produção de veículos foi afetada pela falta de componentes, principalmente semicondutores.

Na terceira, de 2023 em diante, os preços avançam em ritmo bem mais lento. O índice atinge o máximo da série em abril de 2026, com 129,5 pontos, e está em 128,0 em setembro de 2026, 0,3% abaixo do nível de doze meses antes.

Figura 2 – Evolução do índice de preços de automóveis
Figura 2 – Evolução do índice de preços de automóveis. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

A cesta, porém, esconde comportamentos muito diferentes entre carros novos e usados.

Os carros novos subiram de forma mais contínua: o índice chega a 153,0 pontos em setembro de 2026, alta de 53% desde o início da série. Entre junho de 2020 e junho de 2022, a alta foi de 26,8%. O máximo da série foi registrado em junho de 2026, com 154,8 pontos.

Figura 3 – Evolução do índice de preços de automóveis novos.
Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.
Figura 3 – Evolução do índice de preços de automóveis novos. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Os carros usados contam outra história. Entre 2012 e fevereiro de 2020, o índice caiu 21%, até o mínimo de 79,0 pontos. Com a escassez de carros novos na pandemia, parte da demanda migrou para o mercado de usados, e o índice subiu 24,2% entre junho de 2020 e junho de 2022, voltando para perto de 99 pontos. Desde então, está em queda: em setembro de 2026 marca 87,9 pontos, 2,4% abaixo do nível de doze meses antes.

Figura 4 – Evolução do índice de preços de automóveis usados.
Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.
Figura 4 – Evolução do índice de preços de automóveis usados. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Existe um mês mais barato?

Descontada a tendência, o padrão da cesta é claro: o primeiro semestre é caro e o segundo é barato. De fevereiro a maio, os preços ficam, em média, entre 0,46% e 0,55% acima da tendência. De junho a dezembro, todos os meses ficam abaixo, e o ponto mais baixo é dezembro, com −0,46%. A diferença entre o mês mais caro (março) e o mais barato (dezembro) é de 1,01 ponto percentual.

Figura 5 – Desvio médio da tendência de automóveis
Figura 5 – Desvio médio da tendência de automóveis. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Nos carros novos, o padrão é o mesmo, só que mais intenso. Fevereiro é o mês mais caro (+0,74%) e dezembro o mais barato (−0,51%), uma diferença de 1,26 ponto percentual. Todo o segundo semestre fica abaixo da tendência, entre −0,23% (junho) e −0,51% (dezembro).

Figura 6 – Desvio médio da tendência de automóveis novos
Figura 6 – Desvio médio da tendência de automóveis novos. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Nos carros usados, a sazonalidade é mais fraca e menos regular. O pico vem um pouco depois, entre março e maio, com abril como mês mais caro (+0,32%). Os meses mais baratos são dezembro (−0,32%), setembro (−0,28%) e novembro (−0,27%), enquanto julho, agosto e outubro ficam praticamente na tendência. A diferença entre o pico e o vale é de 0,65 ponto percentual, cerca de metade da observada nos novos.

Figura 7 – Desvio médio da tendência de automóveis usados
Figura 7 – Desvio médio da tendência de automóveis usados. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

A tabela abaixo resume os desvios médios de cada mês.

Mês Cesta (%) Novos (%) Usados (%)
Jan +0,26 +0,33 +0,13
Fev +0,54 +0,74 +0,08
Mar +0,55 +0,67 +0,26
Abr +0,49 +0,56 +0,32
Mai +0,46 +0,53 +0,31
Jun −0,14 −0,23 +0,07
Jul −0,30 −0,41 −0,06
Ago −0,24 −0,32 −0,04
Set −0,35 −0,40 −0,28
Out −0,28 −0,39 −0,04
Nov −0,39 −0,44 −0,27
Dez −0,46 −0,51 −0,32

Tabela 1 – Desvio médio em relação à tendência, por mês (%). Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Quanto disso é sinal e quanto é ruído?

Aqui é preciso cautela. Na maioria dos meses, os intervalos de confiança incluem zero. Em outras palavras, o efeito de um mês isolado não é estatisticamente distinguível de zero com 99% de confiança.

A exceção é fevereiro para carros novos: o efeito estimado é de 0,73% acima da referência sazonal, com intervalo entre 0,02% e 1,44%. Mesmo nesse caso, o limite inferior fica muito próximo de zero. Dezembro, também nos novos, fica no limite oposto: efeito de −0,52%, com intervalo que vai até +0,02%. Na cesta, dezembro tem comportamento parecido, com limite superior de +0,06%. Nos usados, nenhum mês se aproxima da significância.

Figura 8 – Sazonalidade dos preços de automóveis. Intervalos com
ajuste Newey–West: 12 defasagens
Figura 8 – Sazonalidade dos preços de automóveis. Intervalos com ajuste Newey–West: 12 defasagens. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.
Figura 9 – Sazonalidade dos preços de automóveis novos.
Intervalos com ajuste Newey–West: 12 defasagens
Figura 9 – Sazonalidade dos preços de automóveis novos. Intervalos com ajuste Newey–West: 12 defasagens. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.
Figura 10 – Sazonalidade dos preços de automóveis usados.
Intervalos com ajuste Newey–West: 12 defasagens
Figura 10 – Sazonalidade dos preços de automóveis usados. Intervalos com ajuste Newey–West: 12 defasagens. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.
Mês Cesta Novos Usados
Jan +0,25 [−0,44; 0,95] +0,32 [−0,41; 1,06] +0,11 [−0,59; 0,82]
Fev +0,52 [−0,17; 1,23] +0,73 [0,02; 1,44] +0,06 [−0,77; 0,90]
Mar +0,54 [−0,15; 1,23] +0,66 [−0,07; 1,39] +0,25 [−0,45; 0,94]
Abr +0,48 [−0,19; 1,15] +0,54 [−0,14; 1,23] +0,31 [−0,45; 1,08]
Mai +0,45 [−0,18; 1,07] +0,52 [−0,11; 1,15] +0,30 [−0,38; 0,97]
Jun −0,15 [−0,88; 0,57] −0,24 [−1,07; 0,59] +0,06 [−0,65; 0,78]
Jul −0,31 [−0,98; 0,35] −0,42 [−1,14; 0,31] −0,07 [−0,73; 0,59]
Ago −0,25 [−0,85; 0,36] −0,33 [−0,99; 0,34] −0,05 [−0,67; 0,57]
Set −0,36 [−1,01; 0,29] −0,41 [−1,08; 0,27] −0,30 [−0,97; 0,39]
Out −0,29 [−0,83; 0,25] −0,39 [−0,94; 0,16] −0,05 [−0,70; 0,60]
Nov −0,40 [−0,94; 0,15] −0,45 [−0,97; 0,07] −0,28 [−0,95; 0,40]
Dez −0,46 [−0,98; 0,06] −0,52 [−1,06; 0,02] −0,33 [−0,94; 0,27]

Tabela 2 – Efeito sazonal estimado e intervalo de confiança de 99% (%). Em negrito, efeitos estatisticamente diferentes de zero. Fonte: IBGE (IPCA). Elaboração própria.

Isso não invalida o padrão. O que chama atenção é a consistência: os meses de fevereiro a maio estão todos do mesmo lado, e os de junho a dezembro também. Mas a leitura correta é que existe uma tendência de preços mais altos no início do ano e mais baixos no fim, não uma regra de que dezembro sempre será mais barato.

O que isso significa no bolso

Em valores, o efeito é modesto. Para um carro novo de R$ 100 mil, a diferença média entre comprar em fevereiro e em dezembro é de cerca de R$ 1.260. Para um usado de R$ 50 mil, a diferença entre abril e dezembro fica em torno de R$ 325.

Para dar uma noção de escala, entre junho de 2020 e junho de 2022 a cesta subiu 25,7%. O momento do ciclo pesa muito mais que o mês do ano. Uma boa negociação, uma promoção pontual, as condições de financiamento ou a escolha do modelo também podem render mais do que o calendário.

Conclusão

Para quem pode escolher quando comprar, o segundo semestre, em especial novembro e dezembro, é um bom período para pesquisar e comparar preços, sobretudo de carros novos. Fevereiro e março tendem a exigir mais recursos para a mesma compra.

Essa vantagem, porém, é pequena diante dos outros fatores que movem o preço dos carros. O efeito do calendário fica abaixo de 1% na maioria dos meses, enquanto os ciclos do mercado são muito mais intensos: entre junho de 2020 e junho de 2022, a cesta subiu 25,7%, e a redução do IPI de 2012 derrubou os preços em mais de 5% em um único mês. Diante dessas magnitudes, esperar pelo mês “certo” tende a pesar menos do que aproveitar uma promoção pontual, negociar bem com a concessionária ou acompanhar mudanças de impostos e de condições de financiamento. Uma boa negociação pode render, sozinha, mais do que a diferença média entre fevereiro e dezembro.

Por isso, o calendário funciona melhor como critério de desempate do que como regra de decisão. Se a compra puder esperar e não houver nenhuma oportunidade melhor à vista, o fim do ano tende a ser mais favorável. Se aparecer uma condição vantajosa em outro momento, ela provavelmente vale mais do que a sazonalidade.