A Secretaria do Tesouro Nacional estima que a carga tributária bruta do Brasil foi de 32,4% do PIB em 2025. Ou seja, todos os tributos e contribuições de todos os entes públicos somados equivale a cerca de um terço de tudo o que o país produz. Há quem considere essa carga elevada e há quem discorde: Dinamarca, França e Itália, por exemplo, registraram em 2024 cargas de 45,2%, 43,5% e 43,4% do PIB, respectivamente, bem acima da brasileira. Segundo dados da OCDE, em 2024 o Brasil teve a 13ª menor carga tributária entre 37 economias analisadas: os 36 países da OCDE com dados disponíveis para o ano e o próprio Brasil.

Figura 1 – Carga tributária (% do PIB): Brasil e países da OCDE – 2024

Gráfico 1 do documento

Fonte: OECD Data Explorer.

Na comparação com a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a carga brasileira ficou abaixo em 17 dos 20 anos entre 2005 e 2024, o que sugere que ela talvez não seja tão elevada assim. Essa leitura, porém, é simplista, porque ignora um aspecto essencial: a produtividade média do brasileiro.

Figura 2 – Carga tributária (% do PIB): Brasil e média da OCDE – 2005 a 2024

Gráfico 2 do documento

Fonte: OECD Data Explorer.

Para incorporar a produtividade, a pergunta deixa de ser “qual é a carga tributária do Brasil em relação aos países da OCDE?” e passa a ser “quanto tempo o brasileiro precisa trabalhar para gerar o nível atual de arrecadação?”. Para respondê-la, é preciso considerar uma das principais métricas de produtividade: a produção por hora trabalhada. Os dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) permitem obter essa métrica para o Brasil e os países da OCDE. A Figura 3 mostra a produção por hora trabalhada em 2024: o Brasil ocupa a segunda pior posição, à frente apenas da Colômbia, com US$ 21,07 por hora trabalhada, em paridade de poder de compra.

Figura 3 – Produção por hora trabalhada (US$ PPC): Brasil e países da OCDE – 2024

Gráfico 3 do documento

Fonte: ILOSTAT.

Em média, os países da OCDE produzem por hora cerca de três vezes mais que o Brasil, enquanto sua carga tributária é apenas 1,4% maior que a brasileira (34,2% contra 33,7% do PIB em 2024). Com essas duas estatísticas, é possível calcular quantas horas de trabalho são necessárias para gerar a arrecadação. A informação adicional é o PIB em paridade de poder de compra de cada país, obtido no Banco Mundial. Para ter uma medida comparável entre países, o total de horas foi dividido pela população, também a partir de dados do Banco Mundial.

Figura 4 – Produção por hora trabalhada (US$ PPC): Brasil e média da OCDE – 2005 a 2024

Gráfico 4 do documento

Fonte: ILOSTAT.

Vale notar que o cálculo combina bases de dados diferentes, todas de organismos internacionais reconhecidos. Cada variável, porém, vem sempre de uma única fonte para todos os países, o que garante a consistência das comparações. Note também que a estatística mede quanto tempo cada brasileiro, na média da população, precisa trabalhar para pagar os impostos, e não quanto tempo cada trabalhador precisa trabalhar. Trata-se, portanto, de uma medida aproximada, mas significativa para a análise.

Os resultados indicam que cada brasileiro precisa trabalhar 933 horas por ano para pagar os impostos do país. Na média da OCDE, são 850 horas por pessoa. No Brasil, portanto, é preciso trabalhar cerca de 10% a mais para atingir a arrecadação cobrada pela carga tributária. Na série analisada, 2024 registrou o segundo maior tempo de trabalho necessário, atrás apenas de 2008.

Figura 5 – Horas de trabalho necessárias por pessoa para pagar impostos: Brasil e média da OCDE – 2005 a 2024

Gráfico 5 do documento

Fonte: Elaboração própria com dados da OCDE, OIT (ILOSTAT) e Banco Mundial.

Entre os países da OCDE, o Brasil tem a décima maior quantidade de horas necessárias para pagar impostos (Figura 6). Essa comparação, no entanto, ainda é imperfeita, porque cada país arrecada uma proporção diferente do PIB: alguns precisam de mais horas que o Brasil simplesmente porque arrecadam mais. Para controlar esse fator, calcula-se a seguir quantas horas cada país precisaria trabalhar para arrecadar a quantidade em impostos por pessoa do Brasil.

Figura 6 – Horas de trabalho necessárias por pessoa para pagar impostos: Brasil e países da OCDE – 2024

Gráfico 6 do documento

Fonte: Elaboração própria com dados da OCDE, OIT (ILOSTAT) e Banco Mundial.

Essa nova medida ajuda a dimensionar o custo excessivo da carga tributária brasileira, expresso na quantidade de trabalho a mais em relação aos países da OCDE. Os resultados indicam que o Brasil tem a quarta maior necessidade de horas de trabalho por pessoa, atrás apenas de Colômbia, México e Chile (Figura 7). Ou seja, para arrecadar a mesma quantidade de impostos per capita que o Brasil, todos os demais países exigiriam menos trabalho, o que deixaria mais horas, e consequentemente rendimentos, disponíveis para usufruto da sociedade.

Figura 7 – Horas de trabalho necessárias por pessoa para arrecadar a mesma carga tributária do Brasil – 2024

Gráfico 7 do documento

Fonte: Elaboração própria com dados da OCDE, OIT (ILOSTAT) e Banco Mundial.

Na média da OCDE, arrecadar o equivalente ao Brasil exigiria 414 horas por pessoa, menos da metade das 933 horas necessárias do país (Figura 8). Uma pergunta análoga para interpretar essa estatística é: se o Brasil tivesse a produtividade média da OCDE, quantas horas cada brasileiro precisaria trabalhar para gerar a arrecadação atual?

Figura 8 – Horas de trabalho necessárias por pessoa para arrecadar a carga tributária do Brasil: Brasil e média da OCDE – 2005 a 2024

Gráfico 8 do documento

Fonte: Elaboração própria com dados da OCDE, OIT (ILOSTAT) e Banco Mundial.

Fica evidente, portanto, que, embora a carga tributária brasileira seja menor que a média da OCDE, a produtividade do Brasil é muito baixa. Como resultado, o brasileiro precisa trabalhar mais que o dobro de horas para pagar os impostos que sustentam o Estado. Dada essa característica nacional, a carga tributária é, sim, elevada. Por isso, o Brasil precisa de políticas que estimulem o aumento da produtividade, tema que será discutido em publicações futuras.

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